segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Barro do vida


Barro da vida
::Vivaldo Coaracy::

A vida de cada um de nós é o punhado de barro que nos é dado para que o trabalhemos e aperfeiçoemos, de acordo com as nossas capacidades e gostos, imprimindo-lhe à marca de nossa personalidade, transmitindo-lhe o que em nós houver, dando-lhe um destino. É a tarefa que nos cabe: fazer alguma coisa com a vida que vivemos. Só assim a justificamos. É o preço que devemos pagar pela nossa passagem pelo mundo.

Nem a todos é dado fazer da própria existência uma obra de arte, um exemplo de beleza ou de bondade – porque o belo e o bem se confundem para abrir no coração dos outros um clarão de alegria, para distribuir em torno de si a graça de um sorriso. Raros, muito raros, são os escultores que transformam o barro vil da própria vida em fonte de inspiração capaz de trazer às almas dos outros as horas preciosas de alegria, de esperança ou de paz. São os Artistas, os Sábios e os Santos.

Não há, porém, que desprezar pela sua humildade a bilha em que repousa a água que dessedenta, o pote em que se coze o alimento do simples. O trabalho do oleiro é o que ele pode dar de si, é o que está na sua aptidão e capacidade. Não se lhe exija mais. Fez da sua vida uma obra de utilidade, cumpriu a sua tarefa. Se as estatuetas deleitam as nobres faculdades do espírito, não são os púcaros menos necessários ao comezinho conforto material. Quem faz da sua vida, porque mais não pode dar, modesto instrumento de utilidade real, cumpre a sua missão humana.

Constituem legião os que, destituídos de dons e de habilidades, nada mais podem fazer com o barro da própria vida do que amoldá-lo em tijolos uniformes e iguais. Entra dia e sai dia, e eles os consomem na rotina monótona da única tarefa que lhes é dado executar. Um dia chegará o alvanel que há de reunir os tijolos, solda-los uns aos outros, combina-los numa estrutura que tanto pode ser o tosto abrigo de um lar pobre como o soberbo palácio da opulência. Os tijolos, todos iguais, tanto servem a um como a outro. Não saberá o tijoleiro, nem lhe importa saber, qual a utilização final da obra de suas mãos. Cumpriu a sua tarefa.

Estatuário de gênio ou mero esculpidor de figurinhas; ceramista isnpirado ou simples torneador de alguidares modestos; tijoleiro humilde que seja, cada um fez com o barro da vida aquilo que era capaz. Todos justificaram a sua existência. Porque todos, cada qual na sua esfera, dentro dos limites impostos pelos seus dons e aptidões, realizaram o destino do homem: Servir.

Porque este, minha filha, é o verdadeiro e supremo sentido da Vida. A existência nos é dada, como um barro maleável, para que, como os meios de que dispomos, a modelemos para com ela fazer alguma coisa de que resulte alegria, proveito ou utilidade para os outros. Só assim nos mostraremos dignos dela. Servir é a lei da vida.

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