
Essas idéias vêm mais ou menos rondando minha cabeça desde que reli, por esses dias, O Encontro Marcado, romance que o Fernando Sabino lançou em 1956 e que vem exercendo desde então um fascínio plenamente justificado por gerações e gerações de leitores. É um daqueles livros em que o protagonista se faz todas as perguntas fundamentais do ser humano. Mais do que se fazer tais perguntas, se lança em busca por respostas no único âmbito em que talvez essas respostas podem ser encontradas: na vida, na vida propriamente dita, na crua e insofismável realidade das coisas.
O protagonista do livro é Eduardo Marciano, alter ego de Sabino. Seu amigos de adolescência, Mauro e Hugo, correspondem a Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende, respectivamente. Antonieta, mulher de Eduardo, é Helena Valladares. Toledo, um dos personagens mais importantes da história, mentor do jovem Eduardo (e do moço Eduardo, e do adulto Eduardo), corresponde a Guilhermino César. Na adolescência, Mauro, Hugo e Eduardo estão, em tese, pau a pau em matéria de maturidade emocional e intelectual. Não que eles sejam lá grande coisa – no fundo e no raso não passam de uns bobinhos provincianos cheios de literatices na cabeça macaqueando palavras de ordem que artistas de vanguarda europeus haviam pronunciado cinqüenta anos antes deles. Bem, façamos justiça ao púbere Eduardo: a despeito das molecagens a que se entrega na companhia dos dois amigos, ele já dá mostras de ter uma personalidade muito mais profunda do que a dos outros dois. Não sei muito o que dizer sobre Hugo, um personagem com contornos vagos demais na história. Mauro, porém, é o típico molecote revoltadinho contra a ordem estabelecida, um daqueles caras cheios de chavões na ponta da língua, sempre a denunciar a hipocrisia da igreja, a injustiça do sistema, a chamar os outros de vendidos e coisas do gênero. Mauro, em suma, é um idealista juvenil. Sua percepção das coisas é vulgar, primária. Ele opta por uma simplificação ordinária das complexas questões que norteiam o ser humano, abraçando um humanismo xexelento, meio marxista, como ideologia. Mauro berra, estrebucha, mas no fundo é evasivo, está sempre lavando as mãos. Mauro não tem, em suma, caráter pra enfrentar a vida sem essas muletas ideológicas. Se alguém tinha alguma dúvida do que o destino viria a reservar a esse moço de fino trato, eu não tinha: ele vira um medicozinho meia-boca, trabalha tirando raio-x num pronto-socorro, casa, tem filhos, não quer mais saber de nada. Vira um realista, em suma. Um realista dos mais reles.
A jornada pessoal de Marciano, em contrapartida, se densifica a cada instante. Seu casamento com Antonieta desmorona. Amigos morrem em situações dramáticas, real e simbolicamente – um, por exemplo, que tinha sido campeão de natação e morre num desastre aéreo, afogado. Questões se acumulam, irrespondíveis. Em meio a essa bagunça toda, esse caos, Eduardo consegue eleger um valor, uma meta que será crucial a ele: o valor de se conquistar uma convicção.
Convicção. Me vem à cabeça agora o – na minha opinião – texto mais pungente, brilhante e belo que o Sabino escreveu, Diante do Espelho (crônica indispensável, indispensável, que fecha o livro Deixa o Alfredo Falar!). O texto, entre outras coisas, chega exatamente a esse ponto: a necessidade de, na vida, conquistarmos uma convicção. Convicção, caráter. Transigir ou não transigir? Cedo ou tarde todo mundo transige, isso não é problema. A questão, talvez – a questão que serve para o Eduardo Marciano, para o Sabino, para mim e, seguramente, pra você, caro leitor –, a questão talvez então seja essa: jamais perdermos a noção, mesmo dolorosa, de nossas transigências. Jamais esquecermos do que nos levou a transigir. Transigimos, sim. Por decisão pessoal, única e exclusivamente nossa. Coisa a que os Mauros da vida, estou certo disso, sequer atinam.






































