sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Um pouco de piedade por tanta leviandade!


Segundo o Aurélio, leviano é um adjetivo e significa: “que julga ou procede irrefletidamente; precipitado, inconsiderado, imprudente. Sem seriedade, inconstante”.

Eu começaria lançando um questionamento íntimo e pessoal: quem, em toda a sua vida, nunca agiu de modo irrefletido, nunca foi precipitado ou imprudente? Quem, de modo algum, jamais, agiu sem seriedade ou foi inconstante?!?

Creio que, alguns mais, outros menos, todos nós já fomos levianos alguma vez na vida! Portanto, deveria se tratar apenas de mais um adjetivo que caracteriza nossa condição de imperfeitos! No entanto, o que me parece é que a leviandade passou a ser a base de muitas atitudes e recorrentes escolhas, especialmente aquelas que ganham destaque na mídia, seja de que modo for – para o bem ou para o mal. Assim, já não amamos ou odiamos pelo que realmente somos ou baseados naquilo em que realmente acreditamos. Já nem sabemos mais quais são os valores que nos guiam, as verdades que nos conduzem. Perdemos o bom senso, a noção de limite e a capacidade de crítica. Do mesmo modo que elegemos um “zé ninguém” como celebridade, passamos a admirar e respeitar uma “maria vai com as outras” como ditadora de um estilo ou de uma teoria qualquer, também dizemos que amamos para todo sempre um “fulano” que nem sabemos quem é... que acabamos de conhecer ou sequer tivemos essa oportunidade. Amamos virtualmente e tudo bem!

E neste ritmo, vamos apostando em sentimentos levianos, que não existem, que não têm raízes.

Gente! Sentimentos precisam ser cultivados, nutridos e considerados como algo muito importante – porque são muito importantes! E o que é importante carece de dedicação, delicadeza, intensidade, tempo... Carece de troca, partilha, disponibilidade, experiências em comum...

É o exercício do sentir que torna real o sentimento. Mas porque temos abandonado nossas referências sobre o que seja sentir de verdade, terminamos acreditando que temos muito mais direitos e muito menos deveres do que deveríamos nessas relações levianas e vazias que insistimos em sustentar. E toda vez que nos esvaziamos do que poderia ser criativo, produtivo e transformador, chegamos mais perto das tragédias e da insanidade, das ações impulsivas e das escolhas desesperadas...

Caímos em nossas próprias armadilhas e nem percebemos. Sabe qual é a reação das pessoas que nos assistem? A mesma que a nossa diante da queda do outro: nos achamos os donos verdade! Acusamos, apontamos o dedo, julgamos, condenamos, massacramos, comportamo-nos tão monstruosa e indignamente quanto os mais terríveis levianos. E nos chamamos de justiceiros...

Quanta falta de humanidade de todas as partes: de quem comete a insanidade e de quem aponta o dedo como se fosse perfeito. Quanta falta de referência: nem Jesus, nem Buda, nem Madre Tereza, nem o Dalai Lama, nem nenhum outro grande Mestre jamais defendeu o atirador da primeira pedra. Pelo contrário, todos eles pregaram a compaixão, o perdão e a lembrança de que somos todos iguais, sem o direito de julgar o outro. E o que temos feito?!? Leviandades... nada mais que leviandades... maiores, menores, estrondosas, imperceptíveis... não importa o tamanho... temos cometido inúmeras leviandades e continuamos nos considerando os melhores, os mais corretos, os mais repletos de razões.

Neste momento e de hoje em diante, quero apenas olhar para o meu próprio dedo e – mais do que justiça – pedir piedade, porque é disso que todos nós estamos precisando!

quarta-feira, 27 de agosto de 2008


Os místicos e os apaixonados concordam em que o amor não tem razões. Angelus Silésius, místico medieval, disse que ele é como a rosa:"A rosa não tem "porquês". Ela floresce porque floresce".


Drummond repetiu a mesma coisa no seu poema As Sem-Razões do Amor. É possível que ele tenha se inspirado nestes versos mesmo sem nunca os ter lido, pois as coisas do amor circulam com o vento.


"Eu te amo porque te amo..." - sem razões... "Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo. Meu amor independe do que me fazes. Não cresce do que me dás. Se fosse assim ele flutuaria ao sabor dos teus gestos. Teria razões e explicações. Se um dia teus gestos de amante me faltassem, ele morreria como a flor arrancada da terra".


"Amor é estado de graça e com amor não se paga".Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que "amor com amor se paga". O amor não é regido pela lógica das trocas comerciais. Nada te devo. Nada me deves. Como a rosa que floresce porque floresce, eu te amo porque te amo. "Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários... Amor não se troca... Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo"...


Drummond tinha de estar apaixonado ao escrever estes versos. Só os apaixonados acreditam que o amor seja assim, tão sem razões. Mas eu, talvez por não estar apaixonado (o que é uma pena...), suspeito que o coração tenha regulamentos e dicionários, e Pascal me apoiaria, pois foi ele quem disse que "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Não é que faltem razões ao coração, mas que suas razões estão escritas numa língua que desconhecemos.


Destas razões escritas em língua estranha o próprio Drummond tinha conhecimento, e se perguntava: "Como decifrar pictogramas de há 10 mil anos se nem sei decifrar minha escrita interior? A verdade essencial é o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me dá um soco." O amor será isto: um soco que o desconhecido me dá?


Ao apaixonado a decifração desta língua está proibida, pois se ele a entender, o amor se irá. Como na história de Barba Azul: se a porta proibida for aberta, a felicidade estará perdida. Foi assim que o paraíso se perdeu: quando o amor - frágil bolha de sabão - não contente com sua felicidade inconsciente, se deixou morder pelo desejo de saber. O amor não sabia que sua felicidade só pode existir na ignorância das suas razões. Kierkegaard comentava o absurdo de se pedir aos amantes explicações para o seu amor. A esta pergunta eles só possuem uma resposta: o silêncio. Mas que se lhes peça simplesmente falar sobre o seu amor - sem explicar. E eles falarão por dias, sem parar...


Mas - eu já disse - não estou apaixonado. Olho para o amor com olhos de suspeita, curiosos. Quero decifrar sua língua desconhecida. Procuro, ao contrário do Drummond, as cem razões do amor...


Vou a Santo Agostinho, em busca de sua sabedoria. Releio as Confissões, texto de um velho que meditava sobre o amor sem estar apaixonado. Possivelmente aí se encontre a análise mais penetrante das razões do amor jamais escrita. E me defronto com a pergunta que nenhum apaixonado poderia jamais fazer: "Que é que eu amo quando amo o meu Deus?" Imaginem que um apaixonado fizesse essa pergunta à sua amada: "Que é que eu amo quando te amo?" Seria, talvez, o fim de uma estória de amor. Pois esta pergunta revela um segredo que nenhum amante pode suportar: que ao amar a amada o amante está amando uma outra coisa que não é ela. Nas palavras de Hermann Hesse, "o que amamos é sempre um símbolo". Daí, conclui ele, a impossibilidade de fixar o seu amor em qualquer coisa sobre a terra.


Variações sobre a impossível pergunta: "Te amo, sim, mas não é bem a ti que eu amo. Amo uma outra coisa misteriosa, que não conheço, mas que me parece ver aflorar no seu rosto. Eu te amo porque no teu corpo um outro objeto se revela. Teu corpo é lagoa encantada onde reflexos nadam como peixes fugidios... Como Narciso, fico diante dele... No fundo de tua luz marinha nadam meus olhos, à procura... Por isto te amo, pelos peixes encantados..."(Cecília Meireles)


Mas eles são escorregadios, os peixes. Fogem. Escapam. Escondem-se. Zombam de mim. Deslizam entre meus dedos.


Eu te abraço para abraçar o que me foge. Ao te possuir alegro-me na ilusão de os possuir. Tu és o lugar onde me encontro com esta outra coisa que, por pura graça, sem razões, desceu sobre ti, como o Vento desceu sobre a Virgem Bendita. Mas, por ser graça, sem razões, da mesma forma como desceu poderá de novo partir. Se isto acontecer deixarei de te amar. E minha busca recomeçará de novo...


" Esta é a dor que nenhum apaixonado suporta. A paixão se recusa a saber que o rosto da pessoa amada (presente) apenas sugere o obscuro objeto do desejo (ausente). A pessoa amada é metáfora de uma outra coisa. "O amor começa por uma metáfora", diz Milan Kundera. "Ou melhor: o amor começa no momento em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética.


" Temos agora a chave para compreender as razões do amor: o amor nasce, vive e morre pelo poder - delicado - da imagem poética que o amante pensou ver no rosto da amada...


Rubem Alves, teólogo, filósofo e psicanalista brasileiro.

A verdadeira história da tal alma gêmea
por Andrea Pavlovitsch - andreapavlovitsch@uol.com.br

Lá vou eu, novamente, falar sobre relacionamentos. Esse tema tão controverso que nos faz perder o sono de noite e imaginar mil fantasias. Já falei das ilusões e das desilusões e, hoje, queria falar sobre um tema que é a coisa mais comum de escutarmos: quero um amor para me completar.

Essa frase é tão comum que acreditamos mesmo que ela seja verdadeira. Essa crença de que somos incompletos vem dos tempos de Platão. Segundo a sua teoria, o ser humano era uma forma inteira, completa. Lá pelas tantas os Deuses resolveram nos condenar nos dividindo em dois e fazendo com que passássemos a vida toda procurando a nossa “outra metade”. Talvez Platão nem estivesse realmente querendo ser tão literal, mas o que nós entendemos é que precisávamos perder tempo procurando o que chamamos de alma gêmea, aquela pessoa que irá nos completar em tudo, de todas as formas e nos fará sentir algo inimaginado, inigualável, incomparável.

De fato, algumas pessoas já se sentiram assim quando no estado de paixão. E é difícil se apaixonar dessa maneira mais de uma vez na vida. Isso porque o estado de paixão sugere, primeiramente, ilusão. E o futuro das ilusões nos sabemos qual é: a desilusão. Imaginamos que aquela pessoa é a nossa cara metade e nos apaixonamos mais pela idéia, mais pelo amor, do que pela pessoa em si. Claro que quando isso acontecer de novo pensaremos “aqui não” por conta de feridas que acabaram por não cicatrizar e nos fechamos para viver novamente esse estado de entrega. O que não é de todo insalubre, já que não faremos nos iludir novamente. Mas que não é de todo saudável, já que muitas pessoas decidem nunca mais se apaixonar.

De fato, amor sugere entrega. Entrega à intimidade com o outro. E por intimidade não estamos aqui entendendo só o sexo. Intimidade é deixar o outro fazer parte da sua vida. Fazer parte da lavanderia no domingo, da macorronada em família. Deixar ele descobrir os seus segredos mais sórdidos e, ainda assim, achar isso lindo. Não o lindo social, propaganda de margarina. Mas o lindo da nossa aceitação. Intimidade só é possível quando nos aceitamos. Como vamos deixar alguém entrar na nossa vida, ver segredos que nem a gente aceita? Se não nos aceitamos, não aceitaremos o outro e a intimidade estará incompleta.

Muitos e muitos casais vivem relacionamentos sem a menor intimidade. Moram sob o mesmo teto por anos e nunca revelaram seus segredos ao outro. Não estou falando do real número de homens com quem você dormiu antes de se casar, mas aqueles segredos que são ainda mais íntimos: as nossas dores, aquilo que nos faz chorar, sofrer; as nossas brigas com a gente mesmo, o que nos assusta, o que nos dá medo. Compartilhar essas coisas exige coragem porque nem nós mesmos conseguimos admiti-las, muitas vezes. E ser íntimo do outro exige que você seja íntimo de você.

A falta de intimidade também afeta, claro, a parte sexual. Ficamos sem coragem de pedir o que queremos para o nosso parceiro ou parceira. Encanamos com as gordurinhas, como se isso fosse afastar o amor que o outro sente pela gente. Fingimos orgasmos maravilhosos, noites perfeitas que nem nos lembramos direito e acabamos só fazendo o que agrada o outro, para não contrariar, sabe?

E, no final, ainda nos sentimos pela metade, incompletos. Isso porque a completude nunca, sob hipótese nenhuma, nem na maior das intimidades, está no outro estar ou não presente. Não estamos completos com o outro, somos completos pela gente mesmo. O que muitas vezes nos falta é integrar as nossas verdadeiras partes. Aquela pessoa que somos de verdade, mas que em algum ponto do caminho resolvemos abandonar. Ou porque a achamos maluca demais, inconveniente. Ou porque escutamos uma crítica qualquer e acreditamos nela. Mas o fato é que nunca seremos realmente felizes enquanto não encontramos a nossa verdadeira alma gêmea, dentro de nós.

E aí, com certeza, será muito mais fácil viver um relacionamento com qualquer outra pessoa. Uma pessoa que tenha a ver com o seu momento e que lhe traga bonitas e importantes lições. Porque somos eternos e muitos, muitos parceiros e lições ainda passarão pela nossa vida. Independentemente de qualquer coisa. Então, que tal abrir o coração para a sua alma gêmea interior? Perceber mais a você e sair da ilusão, do maya, de que o outro lhe fará feliz? Seja feliz agora, com essa companhia maravilhosa que é você mesma.

terça-feira, 26 de agosto de 2008


PAIXÃO PELA VIDA
por Paulo Roberto Gaefke

Para muita gente, o que realmente falta, não é a grana que tanto deseja para quitar dívidas, nem é o grande amor que vai amparar a sua velhice, nem é o carro novo que pode levar para qualquer lugar, e pensando bem, nem a casa com que tanto sonha,nem tampouco uma chácara no meio do nada...

O que realmente falta é o "Tesão pela vida", aquela coisa de adaptar-se a qualquer situação, sempre com um sorrisão no rosto, aquela coisa de ficar bem onde estiver, estar bem com "quanto estiver", de rir de tudo e rir do nada, amar quem lhe ama e quem não ta nem ai, ser do mundo, porque o mundo é seu!

Esse é o seu desafio: transformar aquele "trabalho horroroso"em fonte de prazer e satisfação, transformar o curso tão sacrificante em matéria de desejo, em realização.

Pegar o velho relacionamento, que anda meio apagado, e transformar em uma noite tórrida de paixão, em outra, uma sessão de cinema (ainda que em casa) com pipoca e muito amor.
Transformar a noite solitária em "solidária", visitar uns amigos, parentes e até desconhecidos da rua. Espantar a tristeza com uma certeza: o mundo pode ser muito melhor.

Alegre-se! deixe a tristeza encostada na porta desconhecida, e não volte para buscá-la.

Sinta-se plenamente pronto para viver, que venha o melhor, que venham coisas boas, e as coisas ruins, tire de letra, pois quem sabe cultivar a felicidade, sabe remover espinhos.


"Você é a própria essência do que deseja ter, que seja então, ainda hoje,
o melhor que pode ser. Seja feliz!"

sexta-feira, 22 de agosto de 2008


O EQUILÍBRIO ENTRE O SIM E O NÃO

por Silvana Giudice

Como diferenciar o limite entre as minhas responsabilidade e as do outro? Não acreditamos que o outro tem capacidade para resolver seus próprios problemas e, assim, sentimo-nos na obrigação de resolvê-los.


Sobrecarregamos pesos inúteis, desnecessários e não percebemos que cada um de nós precisa aprender a acionar sua força interior, seus dons e talentos. O ser humano só adquire autonomia através das descobertas íntimas. Portanto, torna-se imprescindível refletirmos sobre nossos relacionamentos e as atitudes repetitivas que, ao invés de ajudarem o outro, impedem seu crescimento.


Uma atitude de profundo respeito e amor é acreditar na capacidade do outro, incentivando-o e encorajando-o a romper laços de dependência. Nosso amor, muitas vezes, SUFOCA com as mais sinceras e boas intenções, quando o mais proveitoso seria darmos “asas” ao outro, liberdade para escolher, avançar, conquistar... ou até errar, cair, aprender, levantar! Às vezes, simplesmente ouvir sem críticas nem julgamentos pode ser um ato de acolher e encorajar, para que o outro organize suas idéias e tranquilize o coração.


Quando não reconhecemos e não demarcarmos esse território, sentimo-nos muitas vezes injustiçados quando o outro não reconhece o nosso sentimento de entrega e doação. E aí vêm as cobranças, as mágoas, as tristezas... Convém também interiorizar-se para saber se realmente é “doação” ou um modo de “comprar amor e atenção”! Acredito que um problema que esbarra na maioria das pessoas, é erradamente associar o não ajudar ao egoísmo.


Para que isso não aconteça e não crie dúvidas em sua cabeça, experimente da próxima vez que estiver numa situação daquelas que você já sabe - “o fim do filme” - se aquietar alguns instantes, confiar no seu bom senso e ASSUMIR a escolha do SIM ou a escolha do NÃO. Assim: "Agora, sou EU em primeiro lugar. Vou dizer não e não terei remorsos nem sentirei que fui egoísta." E quando sentir que deve ajudar, amparar, auxiliar... dê com amor e esqueça que o deu!


Comprometa-se a não se magoar, não se arrepender. Se ainda persistir a dúvida, pergunte ao seu “CORAÇÃO... ele não se engana!


Só assim você não se sentirá injustiçado quando der e não for reconhecido, e nem se sentirá egoísta quando optar por SI MESMO. Nossos atos de bondade e verdade serão reconhecidos e retribuídos pela VIDA e dificilmente por aqueles a quem ajudamos.....

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Eu ando seguindo o que eu acho que tenho de mais valioso: meu coração. Se você estiver no meu caminho, te levarei comigo. (Quer vir?). Cansei de pagar mais por menos. Eu enxergo sua alma. Enxergo suas incertezas. Mas eu não quero suas dúvidas... Por favor, durma com elas. Nem que seja por esta noite. Eu também tenho medo de errar.
O mundo nos prega peças, sabia?
Eu não quero competir com refrões.
Eu quero sentimentos e beijos no pescoço.
Será que é pedir muito?"



Eu sou criança. E vou crescer assim. Gosto de abraçar apertado, sentir alegria inteira, inventar mundos, inventar amores. O simples me faz rir, o complicado me aborrece. O mundo pra mim é grande, não entendo como moro em um planeta que gira sem parar, nem como funciona o fax. Verdade seja dita: entender, eu entendo. Mas não faz diferença, os dias passam rápido, existe a tal gravidade, papéis entram e saem de máquinas, ninguém sabe ao certo quem descobriu a cor. (Têm coisas que não precisam ser explicadas. Pelo menos para mim). Tenho um coração maior do que eu, nunca sei a minha altura, tenho o tamanho de um sonho. E o sonho escreve a minha vida que às vezes eu risco, rabisco, embolo e jogo debaixo da cama (pra descansar a alma e dormir sossegada).
Coragem eu tenho um monte। Mas medo eu tenho poucos. Tenho medo das pessoas, tenho medo de mim. Minha bagunça mora aqui dentro, pensamentos dormem e acordam, nunca sei a hora certa. Mas uma coisa eu digo: eu não páro. Perco o rumo, ralo o joelho, bato de frente com a cara na porta: sei aonde quero chegar, mesmo sem saber como. E vou. Sempre me pergunto quanto falta, se está perto, com que letra começa, se vai ter fim, se vai dar certo. Sempre questiono se você está feliz, se eu estou bonita, se eu vou ganhar estrelinha, se eu posso levar pra casa, se eu posso te levar pra mim. Não gosto de meias-palavras, de gente morna, nem de amar em silêncio. Aprendi que palavra é igual oração: tem que ser inteira senão perde a força. E força não há de faltar porque – aqui dentro – eu carrego o meu mundo. Sou menina levada, sou criança crescida com contas para pagar. E mesmo pequena, não deixo de crescer. Trabalho igual gente grande, fico séria, traço metas. Mas quando chega a hora do recreio, aí vou eu... Escrevo escondido, faço manha, tomo sorvete no pote, choro quando dói, choro quando não dói. E eu amo. Amo igual criança. Amo com os olhos vidrados, amo com todas as letras. A-M-O. Sem restrições. Sem medo. Sem frases cortadas. Sem censura. Quer me entender? Não precisa. Quer me fazer feliz? Me dê um chocolate, um bilhete, um brinde que você ganhou e não gostou, uma mentira bonita pra me fazer sonhar. Não importa. Todo dia é dia de ser criança e criança não liga pra preço, pra laço de fita e cartão com relevo. Criança gosta mesmo é de beijo, abraço e surpresa!

(E eu – como boa criança que sou – quero mais é rasgar o pacote!)

Postado por Fernanda Mello

segunda-feira, 18 de agosto de 2008




PROBLEMAS... ou FATOS?


Em certos momentos as dificuldades parecem intransponíveis, os problemas impossíveis de serem resolvidos, a “carga” sobre os ombros pesada demais... É como se a Vida estivesse fazendo um “complô” contra você...

O que a Vida realmente traz são oportunidades para aprendizado. Cada um de nós, com sua forma de SER (sentir, pensar e agir) recebe algo diferente da Vida para “decifrar”: compreender, digerir, e resolver! Assim, a Vida nada mais é do que uma escola de aprender a viver.

Quando você freqüentava a escola tinha lições de casa para fazer; umas mais fáceis, outras mais complicadas que exigiam mais de você; as tarefas eram geralmente sobre assunto visto em classe, relativo ao programa do curso e ano em que você se encontrava, não era assim? A Escola da Vida também funciona dessa forma: o que você tem para resolver é relativo ao que você precisa aprender! Não é maior ou mais complicado do que sua capacidade de resolver, embora muitas vezes você ache que são! A impossibilidade em resolver os desafios surge quando queremos resolver o que não é um problema – e sim um fato!

Como assim???

Problemas são situações que exigem uma solução e por isso têm uma solução a ser encontrada. Fatos são simplesmente fatos, não têm soluções. Estar à procura de soluções não disponíveis traz ansiedade, angústia e a sensação de estagnação, paralisação e, como conseqüência, os sintomas tão freqüentes de depressão e pânico.

Por exemplo: você planeja um final de semana na praia e chove. Em geral, isso é interpretado como um problema que se quer resolver, mas não pode; então, vem frustração, irritação, revolta, discussão com as pessoas à sua volta, não se conformando com o impedimento. Claro que não é uma situação agradável. Mas a dificuldade está no enfoque: lidar com a situação como se fosse um problema, quando na verdade é um fato e sendo fato, não permite solução, simplesmente aceitação.

Você pode estar pensando: preciso aceitar as coisas como vêm, sem lutar pelo que desejo? Claro que não! Não adianta você ficar brigando com a chuva para poder ir à praia. Nesse final de semana,
· ou você vai à praia com chuva e leva um guarda-chuva...
· ou muda de plano...
· ou deixa para ir à praia num outro final de semana! Goste ou não! O real problema aí é: o que fazer nesse final de semana chuvoso ao invés de ir à praia? Isso é o problema... e tem solução!

Claro que este exemplo é muito simples. Vamos levar esta forma de pensar para outras situações. - Desemprego é fato. Não adianta ficar reclamando, culpando uns e outros. Para resolver é preciso encontrar dentro do fato o que é o problema: o que fazer para conseguir outra colocação, de preferência rapidamente? Ir em busca: trabalhar em seu currículo, alimentar sua auto-estima, o que ajuda você a encontrar algo que o torne satisfeito; reciclar seus conhecimentos, rever formas de atuar em seu trabalho e relacionamentos profissionais; criar alternativas.

- Separação é fato. Se o relacionamento não deu certo, ficar se lamentando, culpando a si mesmo, o outro, outros, pelo que fizeram ou não fizeram, não adianta... Adianta buscar o problema dentro da situação: o que faço para reestruturar minha vida? O que faço para acreditar novamente em minhas capacidades e potenciais? Como posso me desligar dessa história e continuar minha vida?

Essas e outras situações são desafios. E desafios vêm para você do tamanho certo para que você os resolva. O segredo está em buscar dentro dos desafios o que é fato e o que é problema. Claro que envolvido emocionalmente, às vezes torna-se difícil perceber isso sozinho. Nesses momentos, a contribuição de um profissional pode ser de grande ajuda.

Perceber a necessidade de ajuda não é um ato de fraqueza ou dependência, mas uma atitude que demonstra coragem e capacidade de fazer uso de instrumentos que o ajudem a sair da dificuldade, ao invés de ficar, sozinho, se debatendo, reclamando, se lamentando e... sofrendo. Desafios, por mais difíceis que sejam, são preciosos para seu crescimento.

Claro, depende do que você faz com eles:
- usa como vilões e motivo para lamentações, que o tornam vítima da vida;
- ou como possibilidade para crescer, aprender mais sobre si mesmo e poder com o tempo olhar para trás e ver um caminho pontilhado de esforços e conquistas...

"Antes de começar o trabalho de modificar o mundo, dê três voltas em sua casa."Provérbio Chinês

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Pessoas Vazias



Os Lugares estão cheios de pessoas vazias
por Nelson Sganzerla - nelson.sganzerla@terra.com.br

Nesse final de semana fui a uma balada que tanto ouço o pessoal jovem falar (afilhado, filhos de amigos) e, confesso, há tempos não saio na noite e nem vou a lugares cheios, com muito barulho, pessoas falando ao mesmo tempo e brigando por uma mesa, geralmente bambas e super apertadas.Há muito que me decidi não ir a shoppings, circuitos fashions badalados, restaurantes com gente mal educada falando alto exibindo a última tecnologia em celulares. Não gosto de sair do conforto da minha casa para ficar me acotovelado em filas intermináveis... mas como era aniversário de uma amiga querida, lá fui eu...

Devo dizer que esses bares atuais são de muito bom gosto, decoração apropriada, luz com a intensidade ideal que fazem “todos os gatos parecerem pardos”, o chope bem tirado, a porção de salgadinhos, apesar de fritura é saborosa, a música acompanhando a batida do nosso coração, com um “TUM TUM” bastante grave e garçons simpáticos atropelando-nos pelos corredores entre as mesas.

Um lugar bastante atraente, com pessoas bonitas, caras sarados, garotas de capas de revistas, que nada ficam a dever às platéias de uma Fashion Week. Tenho notado que atualmente a cara da noite é outra bem diferente... Não quero aqui ser saudosista, mas os antigos bares noturnos não mais existem, aqueles do banquinho e do violão com músicas que todos à volta cantavam seus refrões, quem não cantou em coro? “Vi tanta areia andei, da lua cheia eu sei, uma saudade imensa”.

Hoje o afair acontece no coletivo, grupos de pessoas se reúnem para irem aos bares, ouvir música e beberem, mas nunca para conversarem olho no olho, mão na mão, mesmo porque o volume é tão alto e a muvuca é tão grande que se torna impossível existir o clima romântico do violão e do banquinho. Pergunto-me: onde ficou o romantismo? Em que esquina ele foi esquecido? Os bares estão cheios de pessoas vazias, não existe conteúdo, não existe lógica; falta essencialidade (não sei se a palavra é essa), mas é assim que entendo e vejo essa grande massa que não sabe o que procura e se entorpece de álcool com as chamadas bebidas que potencializam nosso coração, com cafeína. E saem depois à toda com seus carrões e motos, batendo, matando e morrendo a cada esquina, tudo para irem parar no Instituto Médico Legaallll ou em uma cadeira de rodas. Tudo na vida tem de haver um certo charme, para que nos tornemos interessantes para o outro, para que no outro dia exista uma vontade imensa de ligar novamente e querermos repetir a dose do dia anterior, do bom papo, das experiências trocadas, dos segredos compartilhados, daquela música que fica em nossa mente fazendo-nos lembrar da pessoa que estava em nossa companhia ,do beijo em que passávamos a semana inteira lembrando daquele momento mágico.

Mas talvez o ponto seja a falta de comprometimento, uma ausência de empatia. Estamos descartáveis demais...Beija-se fácil e abraça-se pouco. O diálogo não tem começo nem meio e nem fim (isso quando há diálogo), todos falam ao mesmo tempo e ninguém exercita mais o escutar, o prestar atenção, ninguém fala nada com nada e quando fala percebe-se um ego imenso em torno de cada palavra, toda frase em geral começa na primeira pessoa do singular e jamais na primeira pessoa do plural.

Observa-se mulheres lindas e mal educadas, que são incapazes de agradecerem uma gentileza; homens engravatados circulando com carro do ano, que não sabem o que é dizer um... Por favor! Obrigado! Com licença... Palavras mágicas que aprendemos lá nos primórdios da nossa educação.

Hoje somos tolos em tudo, somos tolos quando acreditamos que tudo sabemos da vida, quando pensamos que o outro não nos faz falta e que podemos viver com arrogância e intolerância. Raríssimas são as vezes em que casais ou famílias se cumprimentam ou trocam cordialidades em um mesmo ambiente. Noto casais com filhos ainda recém-nascidos nos ambientes totalmente fechados em suas células familiares. Como essa criança irá se socializar e tornar-se uma pessoa livre de preconceitos, se não trocar afeto com outras crianças, na rua?

Hoje, o romantismo, a relação humana e o respeito estão plastificados, como a foto do nosso RG sem nenhuma expressão, vivemos no mundo do faz-de-conta, fazemos de conta que somos felizes, fazemos de conta que entendemos de tudo, fazemos de conta que tudo sabemos, e nesse mundo irreal, acabamos solitários e infelizes à frente de uma televisão, estáticos - novamente como na foto do nosso RG - a sonhar com um mundo virtual na tela do nosso laptop feito de pessoas tristes e sozinhas.À noite, as baladas e as luzes nos atraem como mariposas fazendo-nos voar em torno desse glamour, dessas luzes coloridas. Realmente, diante de tanto aparato todos nós somos iguais.

Afinal, o que vale nesse caso é o exterior, um cabelo bem feito, um corpo sarado e roupas de grife. Mas, em geral, somos iguais ao bambu imperial, bonitos e viçosos por fora, mas irremediavelmente ocos por dentro. Somos apenas peças de decoração iguais aos manequins das lojas da Oscar Freire.

Sinceramente, não troco o conforto da minha casa pelas intermináveis filas, mas troco as baladas noturnas por uma boa pizza na casa dos amigos na sexta–feira à noite e me sinto maravilhosamente feliz quando me reúno com minha família e amigos em um churrasco num domingo de sol, seja aqui ou seja na praia... pois os lugares estão cheios de pessoas vazias.Pense nisso!

Sexo com AMOR


Eu duvido de toda a liberdade que não seja responsabilidade. Nunca me senti tão livre quando tinha que cuidar dos meus irmãos pequenos enquanto a mãe estava no trabalho. Preparava o almoço, atendia a visita gritando na janela (nunca pelo vidro da porta), tentava acalmá-los no momento que ficavam ansiosos pela volta materna.

Hoje liberdade parece que é não se importar com o outro. É fácil esquecer amores, amizades, empregos. Não percebo resistência, luta por uma paixão, superação das dificuldades, persistência por um ideal, leitura de lábios, dedicação exagerada e até irritante. Não se faz mais um samba por uma dor-de-cotovelo ou em nome de qualquer parte do corpo. Não se toma um porre para chorar em público por uma mulher. As relações se esgotam em um torpedo. No primeiro empecilho, troca-se de par, troca-se de casa, troca-se de rosto, troca-se de roupa, troca-se de ideologia. Se ela não está a fim de mim, digo azar e não procuro a sorte.

Onde estão os obsessivos? Onde estão os fiéis? Onde estão os que acreditam tanto na dúvida que a transformam em confiança? Involuntariamente, a psicanálise nos libertou a errar sem temor, a agredir sem dó, a fazer o que der na telha sem temer as conseqüências. Com uma terapia uma vez por semana, pode-se quebrar as regras nos demais dias e empilhar o constrangimento no lixo. Tudo é válido, nada mais é proibido, nada mais escandaliza ou merece censura. Mergulhados na ausência mórbida de opinião, já que não se pode reprovar coisa alguma, não se escolhe, não se renuncia.

Condenados à felicidade, como se ela fosse um direito constitucional. É obrigatório gozar, é obrigatório estar acompanhado, é obrigatório ser feliz, é obrigatório emagrecer. Quanta pressão e coerção por todos os lados. Não consigo manter a espontaneidade sendo cobrado. Imagina uma mulher confessar numa roda de amigos que não teve um orgasmo? "Mas como?", vão revidar. "Em que mundo vivia?", o coro grego logo recriminará.

O que devia ser uma conquista tornou-se uma culpa. E o que acontecerá? Haverá mais gente fingindo do que procurando a autenticidade. A pressa elimina o ritmo afetivo de cada um. Não suporto a felicidade como uma imposição, muito menos o gozo ou a euforia. A satisfação pessoal não depende de mim, mas da capacidade de sair de mim. Dependo de quem amo e não me diminuo em dizer isso. Não existe arrebatamento sem idealização, mesmo que o sofrimento venha com o pacote. Cair ao menos me cura da vertigem. Sexo com amor, política com amor, ética com amor, amizade com amor é bem melhor. E natural. Ainda que demore, durará mais do que uma mentira.

Por: Fabrício Carpinejarhttp://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br/

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Já me disseram...


Já me falaram que pra ser interessante tem que ser bonita, que pra ser bonita tem que ser magra, que pra ser magra tem que passar fome. Já me falaram que para ganhar dinheiro tem que trabalhar, mas que pra conseguir um bom trabalho tem que ter sorte e que sorte não se compra no mercadinho da esquina. Já me falaram que ter sonhos é bobagem, que sonhar muito é ocupação de preguiçoso e que preguiça faz mal. Que Papai Noel não existe e que só acredita nele quem é criança e que ser criança é tempo finito. Já me falaram que o bom é o preto no branco, que usar preto emagrece e que roupa branca se lava com água sanitária. Que dormir oito horas é o certo, desde que se deite às 10h e se levante às 6h, passando disso te chamam de desocupado. Já me falaram que ler é importante, mas que leitura boa é aquela de gente inteligente e que parecer inteligente ta na moda. Que ser educada é falar baixo, cruzar as pernas quando se senta e que permanecer sentado muito tempo interfere na circulação. Já me falaram que escrever é terapia e que terapia é coisa de maluco. Que ser feminina é estar sempre cheirosa e arrumada, mas que mania de arrumação é irritante. Já me falaram que homem adora mulher de unhas pintadas de cor clara e sem celulite. Que a vida de solteiro é vazia e que a vida de casado enche. Já me falaram que homem não presta e que amor de verdade é estória de novela mexicana. Que romantismo é coisa do passado, que pra se dar bem a gente tem que jogar. Fingir ser. Fingir sentir. Fingir sorrir. Fingir mentir. Fingir fingir. Mas, falaram-me tb da importância de ser fiel a mim, de fazer crescer a crença em minhas convicções. Falaram-me: Regina, seja a senhora das suas opiniões! Que não existem verdades inexoráveis. Então, descobri que beleza de verdade é que ta do lado de dentro, que pra ser bonita basta se sentir assim. Descobri que comer além da conta às vezes não faz mal a ninguém e que dinheiro não é o mais importante. Aprendi que sorte é materialização do esforço e que o trabalho dignifica qualquer conquista. Descobri que sonho é como o sangue que corre nas veias e que ter preguiça é natural. Que permanecer criança é tão importante quanto se tornar adulto. Aprendi que ao preto e ao branco podemos misturar cores e fazer do mundo um arco-íris. Aprendi que não importa dormir 8 min, 8 horas ou 80 anos, se o que vale é estar acordado para os sinais que a vida nos dá. Aprendi que ser desocupado é um tipo de ocupação que estabelecemos com o nada e que fazer nada também cansa. Que todo tipo de leitura alimenta desde que nos remexa por dentro. Que a inteligência da moda é aquela que nos permite entender e aceitar o outro como nosso irmão. Aprendi que ser educada é demonstrar respeito. Que gritar limpa o espírito. Que pra circulação é bom fazer caminhada e que é pra frente que se anda. Aprendi que caneta e papel em mãos é arma contra a melancolia e que todo mundo precisa de terapia. Que de médico e louco tb tenho um pouco. Aprendi que felizes são os malucos, pois eles são livres. Aprendi que o que irrita é necessário e que até o necessário é prescindível. Que esmalte escuro fortalece as unhas e que celulite é feminino. Aprendi que o que preenche a vida não é seu estado civil, mas o recheio que escolhemos para colocar dentro dela. Aprendi que o sexo masculino é sofisma e, por isso, sempre inconclusivo e inconcluso. Aprendi que ser antiquada é bacana e que tb posso ser atriz de novela mexicana. Aprendi que ser má jogadora não me torna necessariamente uma perdedora. Aprendi que o amor tb pode vir de mãos dadas com a dor. Aprendi que não adianta forjar sentimentos, ensaiar sorrisos, maquinar mentiras ou fingir ser fantoche dos acontecimentos. Aprendi ser EU, com todas as cargas, todos os pesos, todas as dores, amores e dissabores que ser EU me traz. Mas, ser EU, é divertido. Isso, ninguém me falou. Aprendi sozinha.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

A LEI SECA - Dr. Dráuzio Varela


A LEI SECA

DRÁUZIO VARELA

GOSTO DE BEBER, e confesso sem o menor sentimento de culpa. Álcool, de vez em quando, em quantidade pequena, dá prazer sem fazer mal à maioria das pessoas. Aos sábados e domingos, quando estou de folga, tomo uma cachaça antes do almoço, hábito adquirido com os carcereiros da antiga Ca sa de Detenção. Difícil é escolher a marca, o Brasil produz variedade incrível. Tomo uma, ocasionalmente duas, jamais a terceira. Essa é a vantagem em relação às bebidas adocicadas que você bebe feito refresco, sem se dar conta das conseqüências. Cachaça impõe respeito, o usuário sabe com quem está lidando: exagerou, é vexame na certa.

Cerveja, tomo de vez em quando. O primeiro gole é um bálsamo para o espírito; no calor, depois de um dia de trabalho e horas no trânsito, transporta o cidadão do inferno para o paraíso. O gole seguinte já não é igual, infelizmente. A segunda latinha decepciona, deixa até um resíduo amargo; a terceira encharca.

Uísque e vodca, só tenho em casa para oferecer às visitas.

De vinho eu gosto, mas tomo pouco, porque pesa no estômago. Além disso, meu paladar primitivo não permite reconhecer notas de baunilha ou sabores trufados; não tenho idéia do que seja uma trava sutil de tanino, nem o aroma de cassis pisado, nem o frescor de framboesas do campo. Em meu embotamento olfato-gustativo, faço coro com os que admitem apenas três comentários diante de um copo de vinho: é bom, é ruim, e bebe e não enche o saco.

Feita essa premissa, quero deixar claro ser a favor da chamada lei seca no trânsito.

Sejamos sensatos, leitor, tem cabimento ingerir uma droga que altera os reflexos motores, o equilíbrio e a percepção espacial de objetos em movimento e sair por aí pilotando uma máquina na qual uma pequena desatenção pode trazer conseqüências fúnebres?

Ainda que você não seja ridículo a ponto de afirmar que dirige melhor quando bebe, talvez possa dizer que meia garrafa de vinho, três chopes ou uísques não interferem na sua habilidade ao volante.

Tudo bem: vamos admitir que, no seu caso, seja verdade, que você tenha maior resistência aos efeitos neurológicos e comportamentais do álcool e que seria aprovado em qualquer teste de resposta motora.

Imagino, entretanto, que você tenha idéia da diversidade existente entre os seres humanos. Quantas mulheres e quantos homens cada um de nós conhece para os quais uma dose basta para transtorná-los?

Quantos, depois de duas cervejas, choram, abraçam os companheiros de mesa e fazem declarações de amizade inquebrantável? Está certo permitir que esses, fisiologicamente mais sensíveis à ação do álcool, saiam por aí colocando em perigo a vida alheia?

Como seria a lei, então? Deveria avaliar as aptidões metabólicas e os reflexos de cada um para selecionar quem estaria apto a dirigir alcoolizado? O Detran colocaria um adesivo em cada carro estabelecendo os limites de consumo de álcool para aquele motorista? Ou viria carimbado na carteira de habilitação?

Talvez você possa estar de acordo com a argumentação dos advogados que defendem os interesses dos proprietários de bares e casas noturnas: "A nova lei atenta contra a liberdade individual".

Aí, começo a desconfiar de sua perspicácia. Restrições à liberdade de beber num país que vende a dose de pinga a R$ 0,50? Há escassez de botequins nas cidades brasileiras, por acaso? Existe sociedade mais complacente com o abuso de álcool do que a nossa?

Mas pode ser que você tenha preocupações sociais com a queda de movimento nos bares e com o desemprego no setor.

A julgar por essa lógica, vou mais longe. Como as estatísticas dos hospitais públicos têm demonstrado nos últimos fins de semana, poderá haver desemprego também entre motoristas de ambulâncias, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, agentes funerários, operários que fabricam cadeiras de rodas, sondas urinárias e outros dispositivos para deficientes físicos.

No ano passado, em nosso país, perderam a vida em acidentes de trânsito 17 mil pessoas. Ainda que apenas uma dessas mortes fosse evitada pela proibição de beber e dirigir, haveria justificativa plena para a criação da lei agora posta em prática.

Não é função do Estado proteger o cidadão contra o mal que ele faz a si mesmo. Quer beber até cair na sarjeta? Pode. Quer se jogar pela janela? Quem vai impedir?

Mas é dever inalienável do Estado protegê-lo contra o mal que terceiros possam causar a ele.

20 horas de silêncio por dia

20 HORAS DE SILÊNCIO POR DIA Fabrício Carpinejar  Não é hora de brincar. Não é hora de ser irônico. Não é hora de fazer piada. Não...